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O ATRAVESSAR DO ESPELHO: O AUTO TESTEMUNHO EM SI MENOR

Antes que a canoa perdesse os remos no oceano de sentidos, a herança já estava escrita em uma teia de afetos esgarçados — rastro de uma linhagem onde o cuidado desaprendera o seu nome. Naquela raiz antiga, o mito familiar fincara amarras, ramificado no enxame dos seis irmãos da minha avó. Havia o espectro de um antigo noivo que trazia o amor dividido em três altares. Diante da recusa altiva dela, ele bateu-lhe à porta montado em cavalo branco, vestindo apenas cueca branca. Minha avó recusou o príncipe. Minha mãe agigantava o episódio, vangloriava-se do mito, repetindo que o sim teria escrito outra vida. Mas a escolha fora o meu avô: um viúvo que, para recebê-la, reformou a casa inteira para erguer ali sua segunda família. Desse solo, vi minha mãe jovem, desprovida de arrimo e órfã de mãe aos oito anos. Sem suporte, ela repetiu o que não fora simbolizado: o gélido metal de uma entrega que se fez música na sentença si-dó-mi. O desamor tornava-se o meu destino. O desejo dessa mãe claudica...

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