Vivemos uma encruzilhada na forma de se relacionar
Estamos paralisados na encruzilhada de uma época que nos exige ser, simultaneamente, fortalezas inexpugnáveis e amantes entregues. O que vivemos é a dificuldade aguda de se relacionar sob a sombra da tentativa de fusionamento: aquele impulso quase infantil de buscar no outro a cura para a nossa incompleitude, um desejo de dissolver as fronteiras do "eu" em uma unidade mítica que nos proteja do desamparo. No entanto, esse desejo colide frontalmente com uma sociedade onde a subjetividade é empurrada para um ilhamento radical. Somos ensinados a cultivar o "eu" como um capital, uma ilha de autonomia autossuficiente que vê no compromisso profundo uma ameaça de invasão ou de perda de si.
Essa tensão é o sintoma perfeito da nossa Modernidade Líquida. Bauman nos avisou que os laços se tornaram precários; o medo de que a relação se torne um fardo nos faz preferir a conexão à profundidade. Nesse cenário, a fluidez não é apenas liberdade, mas uma ansiedade constante. O medo de "ficar de fora" nos empurra para um consumo frenético de presenças: as relações tornam-se produtos de prateleira, onde o defeito do outro não é algo a ser trabalhado, mas um motivo para o descarte imediato. É a fragilidade dos laços humanos servindo à lógica da obsolescência programada: trocamos de vínculo como quem atualiza o software do celular, buscando uma versão que prometa menos "bugs" emocionais e mais facilidade de uso. Queremos o benefício do afeto, mas sem a renúncia que o vínculo exige.
E essa dinâmica é exacerbada pela Sociedade do Espetáculo de Debord: nossas vidas não são mais vividas, são representadas. Quando a imagem se torna a mercadoria suprema, o amor deixa de ser um diálogo entre duas essências para se tornar um "post" curado. O outro deixa de ser uma alteridade real — com suas dores, silêncios e falhas — para se tornar um acessório na performance da nossa própria existência. A experiência vivida é secundária à experiência exibida. Amamos a imagem que o outro projeta, ou a imagem que nós mesmos projetamos quando estamos com ele; o que chamamos de paixão é, muitas vezes, apenas o brilho ofuscante de um projetor que ilumina uma tela vazia, onde o outro é apenas o suporte para os nossos próprios filtros de perfeição.
Nesse contexto, o "post" curado e a imagem impecável operam como uma reatualização técnica do Estádio do Espelho. Se, na infância, a criança encontra uma unidade ilusória ao ver seu reflexo, o sujeito contemporâneo busca na tela a mesma promessa de integridade. O registro Imaginário é essa captura: acreditamos na ficção de que somos aquela imagem estática e sem fissuras, escondendo o "corpo fragmentado" de nossas angústias reais sob camadas de filtros. O amor, então, degenera em uma relação de espelhamento narcísico: não buscamos o outro, mas uma validação da nossa própria imagem através dos olhos do outro.
Essa crise decorre de uma confusão entre os modelos de identificação. Vivemos a hegemonia da identificação imaginária, onde o eu busca no outro apenas o reflexo do seu Ideal do Eu. É a identificação ao "parecer ser": amamos o outro na medida em que ele sustenta a imagem de perfeição que gostaríamos de possuir. O que o amor real exige, contudo, é a transição para a identificação simbólica, aquela ligada ao traço unário. Amar por um traço não é amar a totalidade da imagem, mas identificar-se com uma marca singular e faltante do outro. O problema da nossa época é que o espetáculo nos treinou para identificar objetos pela embalagem idealizada, tornando-nos analfabetos na leitura desse traço singular que, embora não seja perfeito, é o que verdadeiramente ancora o desejo.
Onde a dor se torna mais aguda é perceber que mesmo nos arranjos que se propunham a ser subversivos, como o poliamor e a não monogamia, essa lógica mercantil muitas vezes se perpetua. O que deveria ser a abertura para o outro pode se transformar em uma logística de corpos e afetos, um gerenciamento de agendas onde a extensão substitui a profundidade. Multiplicam-se os parceiros, mas mantém-se o ilhamento; diluem-se as responsabilidades para evitar o risco da entrega. Essa busca incessante por um parceiro sem "bugs" é a tentativa desesperada de negar a Castração. Aceitar a castração seria admitir que o encontro perfeito é impossível e que ninguém possui o "falo" — esse significante da plenitude. Ao descartar o outro pelo primeiro defeito, o sujeito moderno recusa o limite; ele vive na fantasia infantil de que existe, em algum lugar, um objeto que não seja faltante.
No fim, a intimidade — essa intrusa que habita apenas o terreno da vulnerabilidade e da fricção do tempo — é sacrificada. Pois a intimidade real exige o desmoronamento do espetáculo e o reconhecimento de que somos dois estrangeiros que nunca serão um só. A saída possível para essa encruzilhada não reside na busca por uma conexão mais "autêntica", mas na travessia da fantasia. Isso significa abandonar a promessa de completude e aceitar o "vazio" entre o eu e o outro como o único solo fértil onde o encontro pode ocorrer. A saída é a aposta na Falta: parar de exigir que o outro cure nosso desamparo e começar a amá-lo precisamente por aquilo que lhe falta. É o que Lacan propõe ao dizer que o amor é "dar o que não se tem": uma entrega que não se baseia no capital da nossa imagem, mas na oferta da nossa própria vulnerabilidade.
Nesse cenário de ilhamento, a dinâmica entre o amante e o amado sofre uma torção perversa. Todos buscam a posição de amado, pois ela confere o poder da imagem; o amado é o objeto de luxo na vitrine do espetáculo de Debord, recebendo o tributo da admiração sem o risco da entrega. Já ser amante exige a confissão de uma indigência. O amante ético é aquele que reconhece o seu limite e a sua castração; ele não dá o que possui, mas sim o que lhe falta. O verdadeiro encontro — o desencontro encontrado — só ocorre quando o amado aceita cair de seu pedestal de perfeição e, tocado pela oferta de falta do amante, descobre que o "tesouro" que acreditava possuir é uma invenção do desejo alheio.
Essa queda mútua das máscaras exige a travessia da imagem para o ato. Se o espetáculo oferece a segurança do reflexo estático, o amor exige o risco do Real. A saída para a paralisia das "ilhas que se tocam" é a aceitação de que o amor é o território de quem aceita perder. Perde-se a onipotência, a imagem inabalável e o controle. Ao caminharmos sobre os cacos do espelho quebrado, transformamos a solidão estéril na ética do bem-dizer: reconhecemos que, embora estrangeiros, é na impossibilidade de sermos "um só" que reside a nossa única chance de não estarmos sozinhos. O amor, enfim, deixa de ser um contrato de satisfação mútua para se tornar a coragem de sustentar o hiato que nos une.



Comentários
Postar um comentário