Sobre fantasmas e assombrações
A transgeracionalidade define-se pela transmissão psíquica de conteúdos entre gerações que ocorre de forma inconsciente, diferenciando-se da herança intergeracional por envolver aquilo que não foi dito, elaborado ou simbolizado pelos antepassados. Trata-se de um "saber não sabido" que atravessa o tempo através de segredos de família, traumas silenciados e lutos suspensos, que acabam por se manifestar nos descendentes como comportamentos, medos ou sintomas inexplicáveis pela história de vida direta do indivíduo. O conceito pressupõe que o sujeito não é um início isolado, mas o elo de uma corrente onde o que ficou "criptografado" em uma geração busca expressão na seguinte, muitas vezes sob a forma de uma repetição compulsiva que assombra o presente.
Suas raízes mergulham nas formulações de Nicolas Abraham e Maria Torok sobre a "cripta" e o "fantasma". A cripta é um mecanismo de defesa onde o sujeito "enterra" um trauma inconfessável de um ancestral; diferente do luto comum, o trauma não é assimilado, mas preservado vivo e isolado em um "cofre" psíquico. Já o fantasma é o efeito desse segredo no descendente: uma presença estranha e sem nome que habita o inconsciente do herdeiro, forçando-o a sofrer por uma história que ele sequer sabe que existiu — uma verdadeira assombração psíquica que dita o destino sem pedir licença.
A partir de uma perspectiva lacaniana, esse fenômeno é compreendido pela via da linguagem e do desejo, uma vez que o inconsciente é estruturado como o discurso do Outro. Para Jacques Lacan, o sujeito nasce em um universo de significantes que o precede, sendo "falado" pelos pais antes mesmo de vir ao mundo. Isso significa que o inconsciente não é um reservatório de instintos, mas uma rede de expectativas, medos e desejos do Outro (a cultura e a linhagem familiar) que moldam nossa identidade.
Essa visão fundamenta-se no diálogo com Sigmund Freud, de quem Lacan resgata a mecânica da transmissão filogenética e do recalque falho: o que uma geração não consegue elaborar — o horror que ficou sem nome — não desaparece, mas retorna como algo "estranhamente familiar" (Das Unheimliche). O Unheimliche descreve a sensação inquietante de encontrar algo que deveria ter permanecido oculto, mas que veio à tona; é reconhecer no próprio sintoma algo que pertence à "casa" (família), mas que nos parece estranho por ter sido mantido em segredo, como um rosto familiar que nos observa do escuro.
Soma-se a isso a influência de Claude Lévi-Strauss e as leis de parentesco, que revelam as famílias como organizações de trocas e dívidas simbólicas. O sujeito nasce devedor de uma contabilidade da qual não conhece os números; se houve um "desfalque" na história familiar, como um crime ou um luto não realizado, o descendente nasce como o herdeiro que deve "pagar" essa conta com o próprio corpo. O sintoma, portanto, é a metáfora que tenta responder a esse buraco no saber da linhagem. Essa dinâmica opera na interseção da tríade RSI (Real, Simbólico e Imaginário): o trauma ancestral habita o campo do Real (o inominável que assombra), o Imaginário cria fantasias sobre isso e o Simbólico é o campo da linguagem onde o sujeito busca dar sentido à sua existência.
Nessa estrutura, a transgeracionalidade opera através da cadeia significante. O sujeito é capturado por certos "significantes mestres" (S1) — palavras ou marcas centrais que, embora pertençam ao trauma dos antepassados, organizam a subjetividade do herdeiro como uma lei invisível. O inconsciente, sendo transindividual, guarda a insistência de marcas que não encontraram um "ponto de basta" (point de capiton). O ponto de basta é o momento em que o sentido de uma história é fixado, interrompendo o deslizamento do sintoma e produzindo uma verdade que amarra o sofrimento a uma explicação libertadora, "exorcizando" a repetição.
O caso clínico relatado por Jorge Forbes ilustra com precisão absoluta essa submissão ao Outro ancestral. A paciente queixava-se de não conseguir se relacionar, vivendo isolada. Ela passou a ir às sessões de sandálias até que um dia, usando chinelas, produz o dizer fundamental: "Viu doutor, eu estou quase descalça". O desdobramento dessa fala faz a paciente recordar que, quando criança, visitou a titia Carminha, irmã gêmea de sua mãe. Ao chegarem, atrás das grades de um local reservado, surge a tia. A criança achou que ela era uma presidiária, mas a mãe explicou: titia Carminha era uma carmelita de pés descalços e vivia reclusa. A paciente percebeu que seu isolamento era a encarnação literal daquele significante materno; ela era visitada pelo destino da tia, repetindo sua clausura sem a fé que a justificava.
O exemplo evidencia a distinção entre enunciado e enunciação. O enunciado é o conteúdo literal da fala (a queixa sobre o isolamento); já a enunciação é o ato de falar, o lugar de onde se fala. Ao dizer "estou descalça", a verdade da enunciação apareceu: ela falava do lugar da tia. O significante "pés descalços" funcionava como uma marca traumática não simbolizada que atravessou o tempo para se inscrever no corpo da sobrinha. Na clínica, a cura reside na produção de um "dizer" (fala plena) que toca o Real e compromete o sujeito, diferenciando-se do simples "falar" (fala vazia/dito).
Quando o paciente rompe a passividade e afirma "eu gostaria de saber mais dele" — referindo-se àquele ancestral cujo nome era evitado ou cuja história fora apagada da narrativa familiar — ocorre uma mudança de posição subjetiva fundamental: tá dito. Esse enunciado marca a passagem de alguém que sofria passivamente uma exclusão psíquica para alguém que resgata o que é falado — ou o que nem é falado — sobre aquele que afetou a psique da família. Ao nomear o interesse por esse "personagem proibido", o sujeito deixa de carregar o fantasma do excluído para começar a integrá-lo como parte de sua história. Ao produzir esse dizer, o sujeito retira o segredo do campo do Real e o traz para o Simbólico, despojando o sintoma de sua função de hospedar a exclusão.
Assim, a transgeracionalidade deixa de ser um destino de repetições cegas para se tornar uma transmissão passível de escolha. Ao dar um lugar simbólico ao que estava "criptografado", o sujeito encerra o ciclo da assombração ancestral, permitindo que o legado deixe de ser uma dívida imposta pelo corpo e passe a ser uma história narrada pela palavra. É o ato que permite ao sujeito deixar de ser um apêndice da história do Outro para se tornar autor de um legado, passando do mistério que adoece ao enigma que liberta.



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