É Melhor não saber?


É Melhor não saber?

A ignorância não veste o manto da benção, tampouco oferece o repouso do inocente; ela é, na crônica de nossos dias, a residência preferida, um nicho de concreto e vidro onde o sujeito moderno, exausto, resolveu fixar moradia. Não é a ausência de luz, mas a escolha pela penumbra confortável, um entorpecimento voluntário diante da vertigem do real.

Para a psicanálise, o saber não é acúmulo, não é o brilho da informação que o mundo universitario ostenta, mas sim a busca lenta e dolorosa pela verdade do desejo, que jaz escondida no inconsciente, entre o significante que grita e a pulsão que silencia.

Esvaziado da experiência vivida — daquela que rasga, ensina e consome — o sujeito moderno nutre-se de simulacros. O saber, lento e profundo, foi substituído pela informação, rápida e superficial, em um troca-troca desigual onde se confunde a velocidade da notícia com a digestão da sabedoria. 

A ignorância, tal como um manto sedoso de neblina, busca ocultar os espinhos da existência, mas no fundo da alma, ela não é bênção, é pavor disfarçado de calmaria, um beco sem saída onde o sujeito se fantasia de ausência para não ver o próprio abismo.

Mergulhado num mar de dados, o sujeito padece de sede de sentido. Ele confunde a notificação no visor com o entendimento do mundo. Habita a superfície, com medo de afundar nas próprias inquietações, celebrando a futilidade informada como se fosse compreensão de si e do outro. Assim, a ignorância torna-se o simulacro da paz, um refúgio forjado no silêncio da verdadeira experiência, onde a alma, informada de tudo, já nada sente.

A verdade, esse grão de real que a linguagem mal consegue contornar, nunca é plena, ela fala nas frestas, no ato falho, no sonho que desmancha a coerência diurna, e o psicanalista opera justamente na desconstrução desse saber superficial, a "douta ignorância", para liberar o sujeito da repetição.

Caminhando sobre um fio navalha entre o excesso de luzes e a escuridão da própria interioridade, o sujeito afoga em um mar de informações que se confundem, falsamente, com o saber. Na era da velocidade, parar tornou-se um ato de rebeldia, pois a lógica contemporânea exige a normalização, uma vigilância contínua que substitui a reflexão profunda pela eficiência técnica. Essa pressa em viver, esse ritmo frenético, fragmenta o indivíduo, tornando-o um ser que transita na superfície, acumulando dados, mas carente de sabedoria, confinado em uma solidão habitada por regras e valores impostos que sufocam sua imaginação radical. A distinção é sutil, porém abissal: a informação é efêmera, um relâmpago que ilumina momentaneamente, enquanto o saber é inscrição, marca que se faz no discurso do sujeito, movida pelos enigmas que ele mesmo tece.

Confunde-se, assim, o "ter" com o "ser". O sujeito moderno julga-se informado ao deslizar pelos dedos a tela de um mundo virtual, esquecendo-se de que a apropriação do saber exige tempo de elaboração, um recolhimento que a modernidade tolhe. O saber, apossar-se dele, implica em pausa, em uma travessia solitária por entre as ruínas de verdades fixas, que desabaram em um mundo desolado de referências estáveis. Enquanto a informação se consome rapidamente, o saber exige que o sujeito olhe para trás, como o deus Janus, revisitando o passado para, só então, vislumbrar o futuro.

Para a psicanálise, o saber não é acúmulo, não é o saber do mestre que tudo compreende. Pelo contrário, o saber analítico concerne à dimensão de um "saber que não se sabe", uma fenda que se abre no discurso e que aponta para o inconsciente. É um saber movido pelos enigmas, aquele que toma forma nas entrelinhas dos atos falhos, dos sonhos, na singularidade da voz que se expressa. 
Diferente da ciência moderna que busca a totalidade e a certeza, a psicanálise aposta na falta, no desejo que nasce do que não está lá, no "furo" da linguagem. 
Portanto, o saber para a psicanálise é, essencialmente, a apropriação de um saber próprio, singular, muitas vezes desconhecido pelo próprio sujeito, mas que busca sua expressão, uma escuta poética que o analista cultiva, não para ensinar, mas para permitir que o sujeito se encontre. Enquanto o mundo moderno se apressa, a análise desacelera, convidando o sujeito a habitar sua própria dúvida e, nela, encontrar sua verdade dividida.

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