Quanto você já pagou com seu sofrimento?
Quanto você já pagou com seu sofrimento?
Há um estranho luxo na dor que o sujeito escolhe carregar, tornando-se guardião de um sacrifício não solicitado e pagando um tributo altíssimo em parcelas de angústia. Para quem observa, a conta não fecha, mas para quem sofre, esse custo é a prova de que o vivido ainda possui valor. O sofrimento vira um altar e o indivíduo se agarra às correntes porque o peso do ferro lhe confere gravidade e identidade. Nesse mercado de sombras, opera-se uma contabilidade obscura onde o sujeito se enreda em um gozo que o devora, preferindo o custo da repetição ao desamparo de enfrentar sua própria falta. Ele se torna escravo de um mestre invisível, pagando uma dívida eterna para sustentar o fantasma que o impede de desmoronar.
É nessa economia do excesso que o analista intervém, oferecendo seu próprio inconsciente como uma tela vazia e um empréstimo de psiquismo. Na transferência, o analisante finalmente paga para perder: ele cede a moeda do seu gozo para alugar um espaço simbólico onde sua dor possa ser dita. Se o pagamento financeiro é necessário, é para que o sujeito pare de pagar com o corpo e com o tempo. O dinheiro materializa a renúncia ao lucro amargo da neurose, transformando o sofrimento mudo em responsabilidade ética e permitindo que o analisante desmonte o altar onde se sacrificava ao Outro.
Ao descobrir que esse altar era um cofre vazio, o sujeito declara falência e rasga o carnê das repetições, operando a passagem crucial do sintoma ao sinthoma. Enquanto o sintoma era o nó cego que o estrangulava na busca por um sentido que o Outro nunca deu, o sinthoma é o saber-fazer com o resto, uma costura herética que não pede permissão para existir. Não se busca mais a cura — essa ilusão de retorno a uma integridade que nunca houve —, mas a identificação com o próprio buraco, transformando o vazio que antes sugava em quilha que estabiliza.
Com a astúcia de quem nada mais deve, o sujeito transforma os escombros de sua dívida em uma balsa artesanal feita de restos. É o luxo inédito de navegar sobre o Real sem precisar afogar-se para provar que existe. Mas cuidado: a balsa do sinthoma não é um porto seguro, é apenas o que sobra quando você para de usar o naufrágio como desculpa para não partir. Se a dor era o que te dava peso, quem é esse que sobra quando o ferro flutua? Talvez a liberdade seja apenas o susto de descobrir que você sempre foi o dono do chicote que o açoitava, e que agora, sem o carrasco, o horizonte é largo demais para quem só aprendeu a olhar para o chão da cela.



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